Crônicas de Dallier

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Local: Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brazil

Pensava em ser um Lawrence Olivier, ou um Orson Welles, e me tornei um seguidor de Van Gogh. Já escrevi fotonovelas, fiz teatro infantil e adulto. Aos 39 anos comecei a pintar... E asssim venho me expressando sem fronteiras, descobrindo que sou um artista.

28.12.05

Esse Rio onde nasci

ESSE RIO ONDE NASCI

A velha casa onde nasci , ainda teima em continuar de pé, fica situada em uma pequena rua de nome “Estela “ e tem uma placa de nº 28 presa em uma de suas paredes externas. Fica lá , no finalzinho da Pacheco Leão, hoje uma rua bastante conhecida por ter se tornado um reduto televisivo.

Foi nesse bairro chamado Jardim Botânico, cujo trecho onde nasci , foi apelidado de Itália pequena, que vivi minha vida , até alcançar a maioridade, de ter servido o exército( Escola de Educação Física ) com breve período de ausência , como quando fomos morar na Praça Mauá em uma velha casa construída por meu avô paterno em 1904 e ainda também de pé) de nº 52 , na Ladeira João Homem , onde espero voltar a viver.

Quando tento mergulhar no fundo do poço de minhas memórias , as primeiras imagens que surgem em minha mente, são as de uma manhã de natal lá pelos idos de 1936, quando eu acabara de completar 4 anos de minha existência nesse mundo de Nosso Senhor Jesus Cristo. De manhã ao acordar encontrei junto a cama um carrinho de mão de madeira (parecido com os que são usados em obras) e dentro dele uma boneca (brinquei com bonecas até os 7 anos ). Horas depois , lembro-me bem do meu avô materno e sua oitava mulher (que eu e meu irmão mais velho – éramos apenas dois) fomos acostumados a chamar de avó. Quando os avistei subindo a Ladeira comecei a gritar – “Lá vem vovô” , - “lá vem a lingüiça do vovô !” – pois sempre que ele vinha nos visitar trazia como seu cartão de visitas uma lata de lingüiça “Olderich” em conserva e alguns ovos caseiros . Não me lembro de ter ganho deles um brinquedo .

Outras lembranças dessa época surgem descompassadas , doenças nos olhos , febres constantemente , queimaduras no corpo com café fervente e o acidente que tive no dia em que , minha mãe, eu e meu irmão íamos visitar amigos no bairro onde nasci. Estávamos descendo a ladeira ; lembro-me bem.Meu irmão e eu vestíamos roupas novas de seda branca com botões de madrepérola ; ao olhar para um papa-vento no alto de um sobrado , veio o tombo , quebrei o queixo e fui levado para o pronto-socorro por uma tia do lado paterno de nome Rosa ( Já que eu tinha duas tias do mesmo nome de lados opostos ,morando na mesma casa ) onde levei vários pontos. Lembro-me também dos ônibus de dois andares da light que faziam o percurso Praça Mauá – Jockey Club . Das visitas que fazíamos ao auditório da Radio nacional para ver de perto, Batista Junior (era pai de Linda e Dircinha) e seus bonecos falantes.

Também o carnaval daquela época contagiava toda família (esqueci de dizer que dividíamos a casa com mais quatro irmãos de meu pai e suas respectivas famílias. Fantasiados descíamos a ladeira rumo à Avenida Rio Branco para assistir o desfile de carros abertos , que carregavam foliões que espalhavam confetes , serpentinas e lança- perfumes ( naquela época não era proibido) e parávamos na extinta Galeria Cruzeiro, onde os bondes que chegavam, traziam dezenas de carnavalescos vindos de todas as partes e que se juntavam na avenida , formando um grande bloco contagiante onde a pura alegria reinava nos quatro dias de momo .

Costumávamos , nós os moradores do Morro da Conceição, à participar do banhos à fantasia na Praia do Flamengo, Íamos todos descendo o morro e tínhamos também nossos carros alegóricos que eram empurrados pelos participantes e em determinado ano eu saí em um deles vestido com roupa de papel crepom , como ajudante de motorista que era um primo da mesma idade de nome Ézio. E íamos nós em nosso carro de madeira empurrado por familiares enquanto todos dançavam e cantavam ao som das antigas marchinhas .

A primeira lembrança do bairro onde nasci é de quando com seis anos pertinho dos sete, nos mudamos de volta. É o caminhão de mudanças chegando a Rua Lopes Quintas , e a velha e pequena casa em que fomos morar. Foi nesse dia em que eu conheci Lucilia (onde andará ?) a primeira paixão de menino que durou alguns anos até que ela veio a conhecer àquele que viria a ser seu marido.

Aos domingos freqüentávamos as matinês do Cinema Floresta , que fizeram surgir em mim à paixão por Alice Faye. Via a revia seus filmes (muitas vezes às escondidas) alguns (3) ao lado da brasileiríssima Carmen Miranda.

mais tarde , já adolescente surgiria em mim uma nova e definitiva paixão - Emilinha Borba. Era com ansiedade que esperava os sábados para ouvir a voz de César de Alencar anunciar - A minha , a sua , a nossa favorita -Emilinha Borba.

Continuo a afirmar que junto com a minha mãe foram elas que nortearam a minha vida, e , até hoje estão presentes no meu dia a dia , através de lembranças , discos e filmes , que ouço e . vejo para diminuir a solidão e fazer dela uma boa companheira .

Dallier Rio de Janeiro , ano de 1996